sábado, 24 de setembro de 2016

Questão de valor (Outubro de 1994)



E o mundo continua girando...
Só que agora
Cada vez mais rápido
Sinto o chão abalar-se sob meus pés
As pessoas... ah, as pessoas!
Elas passam
Elas vem
Elas vão
E parecem nunca confiar na vida
Nessa vida de incertezas
De mágoas e alegrias
Sua vida de encontros
Minha vida de desencontros
Sua vida de receber
Minha vida de dar
Será que vale mesmo a pena?
Será que existe honra mesmo, em dar a outra face?
Honrado ou patético?
Nada mais faz sentido agora
Eu só queria um beijo de boa noite...

Parque de diversões (Agosto de 1994)



Vejo crianças brincando
Com seus presentes caros
Vejo crianças sofrendo
Nas frias e sujas calçadas
Vejo o pai que trabalha
No seu carro do ano
Vejo o pai que batalha
Pra pôr o pão na mesa
Vejo a mãe que vai ao shopping
E a que vai lavar e passar
Vejo a menina que namora
E a que se deixa comprar
Tenho casa com piscina?
Ou barraco com espaço para dois?
Tenho marido rico?
Ou um dono para me mandar?
O que tenho com certeza
É pena da minha raça
Que história temos para contar?
A de uma terra, ou melhor,
De uma maquete de circo
Onde eu recebo para te fazer rir
E você paga para me ver chorar...

Por que (09/07/1994)



Quem sou eu?
De onde venho?
Para onde vou?
O que faço aqui?
Ninguém me responde...
Por quê?
Quem veio primeiro?
O ovo? A galinha?
Será que Napoleão era gay?
Por quê?
Por que os peixes não têm dentes?
Somos seres
Que se julgam intelectualmente superiores aos demais
Que se dizem racionais
Mas então,
Por que motivo
Não conseguimos entender
Nem a nós mesmos?

À Luta (Julho de 1994)



Hoje levantamos às cinco
Tomamos café
Escovamos os dentes
Olhamos à janela
Que dia lindo...
De súbito
Um cheiro podre de covardia
Invadia-nos as narinas
Entrou por toda a casa
Nos fez chorar...
Precisamos agir
O mundo precisa disso
Não podemos nos calar de novo
Nós sabemos,
No fundo eu sei, você sabe
Não somos tão covardes assim
Façamos pela primeira vez algo de útil
Algo leal a nós mesmos
Daremos ao mundo o que ele precisa
Agora vamos sair para a batalha real
Chega de assistir TV
Mas primeiro,
Temos que passar no supermercado...

O último adeus (22/06/1994)



Querido,
Não choro mais
Não te preocupes
Encontrei a paz
Enfim consigo entender
Casa-te com ela
Você a ama
E eu não sou empecilho
Não quero deter-te, nem posso
Sou vento remoto, passado
E nem cheguei a perpetuar-me nas vozes do teu íntimo
Mas cuidado
Nem todos os maus tempos terminam bem
Assim como nem todas as casas
Sobrevivem a tempestade
Existem ventos e ventos...
Nem todos são como eu
Tu és como a brisa
Quando vem a bonança
Calmo, Sincero, puro
Tens tudo, assim como eu
Tenho a ti, meu amigo
E apesar da distância
Posso sentir-te inconstante
Pairando levemente sobre o meu ser
Um último adeus
Um dia volto pra te ver...